AVIGNON: QUANDO OS PAPAS VIVERAM NA FRANÇA (1309–1377)

Agência de Turismo Religioso

Um guia histórico e cultural sobre o período em que a Provença foi o centro da Cristandade

Entre 1309 e 1377, a cidade de Avignon, às margens do rio Ródano, na região da Provença, foi a sede da corte papal. Sete pontífices governaram a Igreja a partir da França, num período que ficou conhecido como o “exílio de Avignon” — e que alguns historiadores, de forma mais dramática, chamam de “cativeiro babilônico”. Longe de Roma, a pequena cidade tornou-se, por algumas décadas, o centro visível do mundo cristão.

Para quem hoje viaja em busca de fé e cultura, esse capítulo deixou um presente concreto: o Palácio dos Papas, um dos conjuntos góticos mais impressionantes da Europa e patrimônio mundial da UNESCO. Neste artigo, convidamos você a percorrer essa história — por que os papas deixaram Roma, o que Avignon representou para a Igreja e o que ainda se pode contemplar por lá.

Porque os papas foram para Avignon?

Para entender a transferência da corte papal, é preciso voltar ao episódio de Anagni, em 1303. O papa Bonifácio VIII, que pouco antes havia afirmado a primazia espiritual da Igreja na bula Unam Sanctam (1302), foi atacado por agentes do rei Filipe IV, o Belo, da França. O episódio, conhecido como o “atentado de Anagni”, foi um dos momentos mais tensos da relação entre o poder religioso e o poder político na Idade Média — e deixou marcas profundas.

Após o breve pontificado de Bento XI, foi eleito o arcebispo de Bordéus, Bertrand de Got, que tomou o nome de Clemente V. Diante das pressões da coroa francesa e da instabilidade que dividia a Itália em facções rivais, o novo papa optou por não se instalar em Roma. Em 1309, a corte papal fixou-se oficialmente em Avignon. Não se tratava, em princípio, de uma ruptura com a Cidade Eterna — a tradição católica recorda que “ubi Petrus, ibi Ecclesia” (“onde está Pedro, está a Igreja”) —, mas de uma solução provisória que acabou durando quase setenta anos.

O Palácio dos Papas: fé e poder em pedra

Sob os pontificados de Bento XII (1334–1342) e Clemente VI (1342–1352), Avignon ganhou o monumento que ainda hoje domina a paisagem da cidade: o Palais des Papes — o Palácio dos Papas —, considerado o maior palácio gótico da Europa. Mais do que uma fortaleza, a construção foi pensada como expressão visível da autoridade papal: torres imponentes, arcos ogivais e, no interior, afrescos que fizeram da corte avinhonesa um dos grandes centros de arte do Ocidente medieval.

O complexo divide-se em duas partes:

  • O Palácio Velho (Palais Vieux): erguido no tempo de Bento XII, de linhas sóbrias e ambiente de recolhimento. O pontífice, de caráter austero, dedicou-se a reformas monásticas e à definição doutrinária sobre a Visão Beatífica (bula Benedictus Deus, 1336).
  • O Palácio Novo (Palais Neuf): do tempo de Clemente VI, mais suntuoso, com os afrescos de artistas como Matteo Giovannetti e a grandiosa Capela Clementina, pensada para a beleza da liturgia.

Vale lembrar o contexto em que esse esplendor aconteceu: a Europa enfrentava a Peste Negra (1348) e a Guerra dos Cem Anos. Clemente VI, nesse cenário, ficou conhecido também por proteger as comunidades judaicas perseguidas durante a peste — um gesto que mostra como o período, tantas vezes lido apenas pelo prisma do luxo, também teve sua face de acolhimento.

Cronologia do período

  • 1303 — Atentado de Anagni contra Bonifácio VIII.
  • 1305 — Eleição de Clemente V (Bertrand de Got).
  • 1309 — A corte papal instala-se oficialmente em Avignon.
  • 1311–1312 — Concílio de Vienne, um dos grandes sínodos do período.
  • 1334 — Eleição de Bento XII; início das obras do Palácio Velho.
  • 1342 — Clemente VI; construção do Palácio Novo e apogeu artístico da corte.
  • 1376 — Santa Catarina de Sena exorta Gregório XI a retornar a Roma.
  • 1377 — Entrada solene de Gregório XI em Roma; fim do período de Avignon.

Santa Catarina de Sena e o retorno a Roma

Apesar do vigor cultural e administrativo, crescia entre fiéis e eclesiásticos o desejo de ver o papa de volta a Roma. Duas santas tiveram papel decisivo nesse movimento: Santa Brígida da Suécia e, de modo especial, Santa Catarina de Sena. Em suas cartas ao papa Gregório XI, Catarina tratava o pontífice com a expressão afetuosa de “doce Cristo na terra” e, com respeito e firmeza, pedia que ele deixasse a França.

“Sejais homem viril, e não timorato. Respondei a Deus que vos chama a ocupar e a possuir o lugar do glorioso pastor São Pedro. Não olheis para as dificuldades que vos cercam, pois a força de Deus vos sustentará contra todos os príncipes do mundo.”

— Santa Catarina de Sena, em carta ao Papa Gregório XI

Em 17 de janeiro de 1377, Gregório XI entrou solenemente em Roma, recebido com alegria pela população. O período de Avignon chegava ao fim — embora suas consequências, incluindo o posterior Cisma do Ocidente, marcassem ainda por décadas a história da Igreja.

Visitar Avignon hoje

Para o peregrino e o viajante, Avignon é um convite a caminhar pela história. O Palácio dos Papas, integrado ao conjunto histórico da cidade, é patrimônio mundial da UNESCO desde 1995 — uma das visitas mais ricas do sul da França. Por suas salas e capelas, é possível imaginar a vida da corte papal: as celebrações na Capela Clementina, os afrescos de Matteo Giovannetti, as decisões que ecoaram por toda a Cristandade. Do alto das torres, abre-se a vista do Ródano e da famosa Pont Saint-Bénézet — a “ponte de Avignon” cantada em versos desde o século XV.

Nas proximidades, completam o roteiro a Catedral de Notre-Dame des Doms, vizinha do palácio, e o Museu do Petit Palais, com obras-primas da arte medieval. A cidade combina, assim, história, arte e fé: um capítulo decisivo da Igreja que pode ser tocado com os próprios olhos.

Conclusão

O período de Avignon foi mais do que um parêntese na história papal: foi o cenário de decisões que marcaram a Europa e a Igreja, deixando como herança um patrimônio artístico e espiritual que permanece vivo. Para quem viaja em busca de fé e cultura, a cidade oferece uma oportunidade rara — percorrer o mesmo palácio em que papas rezaram, governaram e enfrentaram as tempestades de seu tempo. Vale a peregrinação.

Fontes sugeridas

  • BONIFÁCIO VIII. Bula Unam Sanctam (1302).
  • MOLLAT, Guillaume. Les Papes d’Avignon (1305–1378).
  • PASTOR, Ludwig von. História dos Papas desde o Fim da Idade Média, vol. I.
  • RENOUARD, Yves. La Papauté à Avignon.
  • ROPS, Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas.
  • DE SENA, Santa Catarina. Cartas (edição em português).

Tags :

Compartilhe em suas redes sociais

Continue lendo

SÃO JOÃO MARIA VIANNEY: O CURA D’ARS E O PODER DA CONFISSÃO

PELLEVOISIN: AS APARIÇÕES DA MÃE DE MISERICÓRDIA E O ESCAPULÁRIO DO SAGRADO CORAÇÃO