Um guia histórico e espiritual pela catedral gótica de Nossa Senhora de Reims, do batismo de Clóvis às coroações reais
Na região de Champagne, no nordeste da França, ergue-se uma das catedrais góticas mais impressionantes do mundo: a Catedral de Nossa Senhora de Reims. Reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1991, ela é famosa por dois motivos: sua arquitetura magnífica e seu papel único na história da França — foi ali que, por mais de mil anos, os reis franceses foram coroados.
Para o peregrino e o viajante, Reims é um convite a caminhar pela história: do batismo de Clóvis, no século V, às coroações reais, passando pela presença de Santa Joana d’Arc. Neste artigo, convidamos você a conhecer essa história e a planejar sua visita.
1. O batismo de Clóvis
A história de Reims começa muito antes da atual catedral gótica. Segundo a tradição, foi ali que, na noite de Natal do ano de 496, o rei Clóvis, chefe dos francos, foi batizado por São Remígio, bispo de Reims. A conversão de Clóvis, influenciada por sua esposa, Santa Clotilde, é considerada um marco na história da França: foi o primeiro grande rei franco a abraçar o cristianismo, abrindo caminho para a cristianização da região.
A tradição conta ainda que, no momento do batismo, teria ocorrido um episódio extraordinário: uma pomba teria trazido uma pequena ampola de óleo sagrado — a chamada Santa Ampola —, usada para ungir o rei. Independentemente da forma como se leia a lenda, o batismo de Clóvis tornou-se o símbolo do nascimento da França cristã, e Reims passou a ocupar um lugar central na história do país.
2. A cidade das coroações
Foi em Reims que, ao longo de mais de mil anos, os reis da França foram coroados. A tradição começou ainda na Idade Média e foi consolidada ao longo dos séculos: a cidade tornou-se o local oficial da unção dos monarcas, numa cerimônia conhecida como o “Sacre”.
A coroação envolvia uma série de ritos religiosos e políticos: o rei fazia um juramento, era ungido com o óleo sagrado e recebia as insígnias reais. A cerimônia, celebrada na catedral, unia o poder político e o religioso num único momento solene. O último rei coroado em Reims foi Carlos X, em 1825.
É importante lembrar que, para além do aspecto político, a coroação em Reims era profundamente religiosa: o monarca era apresentado como um governante que se colocava sob a proteção de Deus e da Igreja. Hoje, a catedral guarda a memória dessas cerimônias, que marcaram a história da França.

3. Santa Joana d’Arc e a coroação de Carlos VII
Um dos episódios mais célebres da história de Reims aconteceu em 1429, durante a Guerra dos Cem Anos. A França vivia um momento difícil: o trono estava em disputa e a coroa parecia perdida. Foi então que uma jovem camponesa da Lorena, Joana d’Arc, guiada por suas “vozes”, liderou as tropas francesas e libertou a cidade de Orléans.
A missão de Joana, porém, ia além da vitória militar: ela queria levar o delfim Carlos VII a Reims, para que fosse coroado rei. Em 17 de julho de 1429, Carlos VII foi ungido na catedral, na presença de Joana, que segurava seu estandarte. Quando questionada sobre por que seu estandarte estava em lugar de honra na cerimônia, ela teria respondido: “Ele estivera na fadiga, era bem justo que estivesse na honra.”
A coroação de Carlos VII em Reims foi um momento decisivo da Guerra dos Cem Anos, e a figura de Joana d’Arc — canonizada em 1920 — permanece ligada à história da catedral.
4. Uma obra-prima do gótico
A atual catedral de Reims foi construída a partir de 1211, depois que um incêndio destruiu a igreja anterior. A obra, que levou décadas para ser concluída, é considerada um dos exemplos mais puros do gótico radiante francês.
Entre os destaques da catedral:
- A fachada ocidental, com seus três portais ricamente esculpidos;
- O famoso “Anjo do Sorriso” (Ange au Sourire), uma das esculturas mais conhecidas da arte medieval, no portal norte;
- Os vitrais, incluindo os antigos e os modernos, criados por artistas como Marc Chagall no século XX;
- As torres e a nave imponente, que impressionam pela altura e pela luz.
Para os medievais, a verticalidade do gótico era uma forma de elevar o olhar e o coração para o céu — uma ideia que o visitante ainda pode sentir hoje, ao entrar na catedral e contemplar a luz que atravessa os vitrais.
5. Cronologia
- c. 260 — Fundação da diocese de Reims; primeiras comunidades cristãs na região.
- 496 — Batismo de Clóvis por São Remígio, segundo a tradição.
- 816 — O papa Estêvão IV coroa o imperador Luís, o Piedoso, em Reims.
- Século XI — Consolidação de Reims como local oficial das coroações reais.
- 1211 — Início da construção da atual catedral gótica, após um incêndio.
- 1429 — Coroação de Carlos VII, na presença de Santa Joana d’Arc.
- 1825 — Coroação de Carlos X, o último rei coroado em Reims.
- 1914 — Bombardeio da catedral durante a Primeira Guerra Mundial; o teto e parte das esculturas são destruídos.
- 1938 — Conclusão das obras de restauração; a catedral é rededicada ao culto.
- 1991 — A Catedral de Reims é declarada Patrimônio Mundial da UNESCO.
6. Visitar Reims hoje
Reims fica a cerca de 140 km a leste de Paris, na região de Champagne, e é facilmente acessível de trem (cerca de 45 minutos de TGV). A catedral é o ponto central da visita, mas a cidade oferece muito mais:
- A Catedral de Nossa Senhora de Reims, com seus vitrais, o Anjo do Sorriso e a nave gótica;
- O Palácio de Tau, antiga residência dos arcebispos, onde os reis se preparavam para a coroação (hoje um museu);
- Basílica de Saint-Remi, dedicada a São Remígio, com relíquias e história;
- As caves de champanhe, já que Reims é o coração da famosa região vinícola;
- A Porte de Mars, um arco romano do século III, testemunho da história antiga da cidade.
A catedral celebra missas regulares e é um lugar de oração vivo, além de ser um dos monumentos mais visitados da França. A melhor época para visitar vai da primavera ao outono.
7. Conclusão
Reims é mais do que uma catedral: é um símbolo da história da França. Do batismo de Clóvis às coroações reais, passando pela presença de Santa Joana d’Arc, a cidade guarda a memória de mais de mil anos de fé e história. Para quem percorre a França em busca de beleza e sentido, a Catedral de Reims é uma parada inesquecível — um lugar onde a arte, a fé e a história se encontram.
8. Fontes sugeridas
- Catedral de Reims — site oficial (cathedrale-reims.com).
- Centre des Monuments Nationaux — Palácio de Tau, Reims.
- UNESCO — Catedral de Reims, Patrimônio Mundial (site oficial).
- SÃO GREGÓRIO DE TOURS. História dos Francos (Historia Francorum).
- DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas.
- BAINVILLE, Jacques. História da França.

